Mirei na Cleópatra. Acertei na Joana la Loca.
Escrito por Gabriela Nunes
Em algum momento da vida adulta, quase toda mulher mirou na Cleópatra (na versão boa dela, para ser mais precisa).
Aquela versão segura.
Estratégica.
No controle.
Que entra na sala e parece que tudo se organiza ao redor dela.
A mulher que decide rápido.
Que não perde tempo repassando conversa no banho.
Que não abre 38 abas mentais ao mesmo tempo.
Uma Cleópatra que provavelmente existe mais no imaginário coletivo do que talvez fosse na realidade.
Mas a vida real… ah, essa é bem menos faraônica e bem mais terça-feira às 17h47.
E, de repente, você não está exatamente se sentindo uma rainha estrategista.
Você está pensando:
– Eu esqueci alguma coisa?
– Por que estou tão cansada?
– Era para eu estar dando conta melhor disso?
– Falta muito para as férias?
É aqui que entra a Joana.
Historicamente foi chamada de “louca”, mas analisando a sua história com mais contexto, vemos na verdade uma mulher inteligentíssima, intensa, emocional, pressionada e julgada por não performar estabilidade o tempo todo.
E eis o X da questão... Quando foi que sentir se tornou tão errado? Algo insano? Um problema...
O problema nunca foi sentir. O problema foi transformar sentimento em defeito.
Segundo o relatório Women @ Work da Deloitte (2023), quase metade das mulheres relatam níveis elevados de estresse ou exaustão no trabalho ( acho que a outra metade não foi entrevistada. rs).
A Organização Mundial da Saúde aponta que mulheres apresentam taxas mais altas de ansiedade e depressão globalmente.
No Brasil, os dados do IBGE mostram que mulheres dedicam quase o dobro de horas às tarefas domésticas e de cuidado quando comparadas aos homens.
Com esse tanto de demanda, é sério que esperamos estar com todos o chakras alinhados? Por gentileza...
E não é loucura. Não é falta de organização.
É excesso de responsabilidade acumulada.
É trabalho.
É casa.
É cuidado.
É expectativa.
É performance.
Tudo isso ao mesmo tempo e sem perder o réu primário.
É por isso a Joana aparece.
Não porque somos frágeis. Mas porque estamos sustentando muitas versões de nós mesmas diariamente. Porque temos uma régua de autocobrança altíssima. Porque somos empáticas com quem gostamos, mas com a gente mesmo é só na base da punição.
A gente aprendeu que maturidade é controle absoluto.
Que liderança é frieza.
Que competência é estabilidade constante.
Só que ninguém vive no auge o tempo todo.
Tem dias de Cleópatra: decisão, clareza, estratégia.
E tem dias de Joana: intensidade, dúvida, excesso de abas abertas.
E o erro moderno é achar que um invalida o outro.
Talvez maturidade não seja eliminar a Joana.
Talvez seja parar de se punir quando ela aparece.
Talvez alta performance não seja viver como rainha poderosa todos os dias.
Talvez seja aprender a transitar entre força e humanidade sem se chamar de fracasso.
Precisamos falar sobre isso.
De um jeito leve.
Com humor.
Sem militância.
Sem peso.
Porque, no fundo, quase toda mulher já mirou na Cleópatra. E acertou na Joana. E está tudo bem.
Se você está organizando o Dia da Mulher na sua empresa e quer fugir do óbvio ou quer indicar essa palestra para o seu RH, me chama.
Posso te contar como essa conversa tem provocado risos, reflexões e, principalmente, memórias.
Sobre Gabriela Nunes
A Gabi Nunes é fundadora da de.Humanos. É graduada em Administração, especialista em Neurociência aplicada à Psicologia, e em Gestão de Negócios, possui mais de 15 anos de experiência na área de comercial, treinamentos e palestras atuando em multinacionais de diversos segmentos. Atua como professora na Fundação Getúlio Vargas - FGV, lecionando as matérias de Neurociência e Gestão de Carreiras, Neuroliderança e Comunicação, Neurolinguística e Storytelling. É mãe dos gatos Charlie e Giorgio. Esposa do Dennis É apaixonada pela lua e pelas coisas simples da vida.